Tenho vivido, ao longo dessas últimas
semanas, situações que têm me levado a refletir sobre minha vida, sobre o amor,
sobre felicidade. Muito mais do que dizer o que devemos ou não fazer, minhas
palavras vão no sentido de pensarmos sobre nós mesmos e sobre nossas atitudes. Eis
algumas questões que tenho levantado: já que o ser humano é naturalmente um ser
social, por que a cada dia que passa nos distanciamos progressivamente uns dos
outros? Por que deixamos, muitas vezes, que os nossos valores estejam acima do
amor ao/à próximo/a? Por que alimentar tantos sentimentos que não nos fazem bem
e não fazem bem ao/à outro/a? Por que não nos esvaziarmos de conceitos e
preconceitos em favor do amor e da felicidade mútua?
“A delicadeza com que tratamos
qualquer pessoa sensibiliza os nossos sentimentos internos e nos aproxima de
nossa essência”, segundo Gabriel Chalita. E como temos nos afastado da nossa
essência! A gentileza, a presteza, a atenção, são atributos que têm sido
esquecidos. Tenho certeza de que todos nós gostamos que sejam gentis conosco,
que sejam prestativos, que sejam atenciosos; e por que não ser assim também com
os outros?! Como é importante um “obrigado” ou um “bom dia” regado a um
sorriso! Como nos faz humanos! Como nos faz felizes! Não existe felicidade sem
amor; sobretudo, o amor que é ofertado!
Talvez pensemos: mas eu não sou
obrigado/a a amar ninguém! Talvez esteja certo/a! Entretanto, isso não nos dá o
direito de rejeitar o próximo! Na maioria das vezes, imaturamente, colocamos os
defeitos dos outros acima de suas qualidades. “No momento em que não suporto o
defeito do outro, o que verdadeiramente rejeito é a minha imagem nele
refletida” (Pe. Fábio). Como eu posso não aceitar as fraquezas alheias se eu
mesmo possuo inúmeras imperfeições?
Faço uma citação do Padre Fábio em
seu livro Cartas entre amigos:
“[...] As pessoas estão cada vez mais
temerosas de se mostrarem frágeis. Por isso simulam uma coragem que não
possuem. Revestem-se de armaduras pesadas na tentativa de sobreviver aos novos holocaustos. ‘Quanto maior a
armadura, mais frágil o ser que a habita!’
[...] Percebo em nossos dias uma
intolerância cada vez maior com os limites humanos. Temos medo das
imperfeições. E por isso evitamos o outro no momento de sua fragilidade.
Corremos o risco de cultivar pessoas e realidades a partir de expectativas, e
não de possibilidades. Queremos o outro, mas esse querer fica condicionado.
Queremos até o momento em que nossas projeções não sejam desarticuladas.
Queremos, mas desde que absolutamente nada contrarie nosso querer.”
Aceitar que somos fracos e que precisamos lidar com as fraquezas do
outro, nos torna mais humanos, nos aproxima da nossa essência! Libertemos-nos
dessas armaduras que insistimos em usar; a armadura do egoísmo, da falta de
compreensão, da falta de ternura. “A falta de amor é a maior de
todas as pobrezas” (Madre Teresa de Calcutá)
É “fácil” amar os nossos pais, os
nossos filhos, os nossos irmãos. E, às vezes, nem é tão fácil assim! E quando
os pais não aceitam as decisões dos filhos? E quando os filhos não trilham os
caminhos que os pais sempre sonharam para eles? E quando os irmãos só se lembram
de você na hora de pedir dinheiro emprestado? E quando o próximo já não é um
parente, mas um/a vizinho/a ou um/a colega de trabalho? Aí é que não temos
obrigação mesmo, não é?
Deixo o conselho de duas
personalidades. O primeiro, de um dos maiores filósofos da atualidade, o francês
Comte-Sponville; o segundo, de uma das pessoas as quais passaram pela Terra que,
de fato, mostrou o que é ser humano, o que é amar: Madre Teresa de Calcutá.
O primeiro:
“Quando existe amor, ele basta: já
não precisamos de moral, já não precisamos nos preocupar com nossos deveres.
Porém, na maioria das vezes, não existe amor; é aí que intervém a moral, que
nos manda agir como se amássemos.
[...] O melhor é amar e dar por amor. Mas, quando não existe amor, diz a moral,
resta dar aos que você não ama. É aí que encontramos a generosidade, virtude
moral, virtude da doação. Quando você não é capaz de dar por amor, aja como se
amasse: dê aos que você não ama! Se você não ama, pelos menos faça como se
amasse: pelo menos seja generoso!”
O segundo:
“Muitas vezes as pessoas são egocêntricas, ilógicas
e insensatas. Perdoe-as assim mesmo! Se você é gentil, podem acusá-lo de
egoísta, interesseiro. Seja gentil assim mesmo! Se você é um vencedor terá
alguns falsos amigos e alguns inimigos verdadeiros. Vença assim mesmo! Se você
é bondoso e franco poderão enganá-lo. Seja bondoso e franco assim mesmo! O que
você levou anos para construir, alguém pode destruir de uma hora para a outra.
Construa assim mesmo! Se você tem paz e é feliz, poderão sentir inveja. Seja
feliz assim mesmo! O bem que você faz hoje, poderão esquecê-lo amanhã. Faça o
bem assim mesmo! Dê ao mundo o melhor de você, mas isso pode nunca ser o
bastante. Dê o melhor de você assim mesmo! Veja você que, no final das contas é
entre você e Deus. Nunca foi entre você e os outros!”